O que muda com a aposta do Google em SMRs
A decisão do Google de contratar reatores nucleares modulares pequenos (SMRs) para abastecer seus centros de dados de inteligência artificial não é apenas uma operação de compra de energia. É um sinal de mudança estrutural na maneira como as big techs encaram a garantia de fornecimento 24 horas por dia. Vamos aos fatos: modelos avançados de IA consomem energia por ordem de magnitude maior que buscas tradicionais; uma única consulta sofisticada pode equivaler a 10 vezes o gasto energético de uma busca comum. Isso significa que fontes intermitentes, por si só, não resolvem o problema de baseload — a oferta contínua e previsível que esses centros exigem.
SMR significa reator modular pequeno. Em linguagem simples, são usinas nucleares desenhadas para produção menor e repetível, construídas em fábricas e montadas perto do ponto de consumo. A promessa é atrativa: modularidade, padronização e possibilidade de instalação em locais antes inviáveis para reatores convencionais. Para data centers — que exigem energia confiável, densa e de baixa emissão de carbono — SMRs combinam escala e proximidade.
O acordo anunciado entre Google e a Kairos Power, com compromisso por 500 MW e primeiras unidades esperadas por volta de 2030, funciona como uma validação de mercado. Empresas como Amazon, Microsoft e Meta observam essa movimentação. Se entrarem na fila, a demanda por SMRs e, por extensão, por toda a cadeia nuclear, se amplia: mineração de urânio, enriquecimento, fabricação de combustível, engenharia civil e componentes especializados.
Qual é a oportunidade para investidores? Há uma tese clara de longo prazo. O mercado global de urânio já sinaliza déficit estrutural; mais reatores em construção e planos de expansão podem pressionar a oferta e elevar preços. Além disso, a produção em série de SMRs tende a reduzir custos unitários e acelerar o time-to-market, criando espaço para players de tecnologia, fornecedores e serviços especializados.
Mas nem tudo é caminho livre. Riscos importantes persistem. Processos regulatórios nucleares são longos e variam por país, o que pode atrasar cronogramas e inflar custos. Projetos nucleares historicamente sofrem com estouros de custo e prazos; SMRs ainda precisam provar desempenho e economia em escala comercial. Há também a dimensão da percepção pública. Na América Latina, incluindo o Brasil, a energia nuclear convoca debates sobre segurança, transparência e responsabilidade estatal.
Como isso se relaciona ao Brasil? Nosso sistema elétrico é hoje dominado por hidrelétricas e uma matriz relativamente limpa; no entanto, o país discute expansão e diversificação energética. O histórico nuclear brasileiro — com Angra e o papel de Eletronuclear — mostra capacidade técnica, mas também revela sensibilidades políticas e sociais. A eventual adoção de SMRs aqui dependeria de quadro regulatório, financiamento público-privado e aceitação social.
Investidores devem considerar horizonte e perfil de risco. Que oportunidades existem hoje? Empresas de mineração de urânio, fornecedores de componentes para reatores, empresas de enriquecimento e grupos de engenharia civil podem se beneficiar se a adoção for ampla. Por outro lado, a volatilidade de preços do urânio e dependências geopolíticas podem afetar retornos. A questão que surge é: você está disposto a aceitar risco regulatório e de execução por exposição em um tema de longo prazo?
Conclusão: o movimento do Google funciona como catalisador. SMRs não são uma bala de prata, mas oferecem uma solução plausível para a necessidade de baseload das infraestruturas de IA. Para investidores, a história abre oportunidades em várias etapas da cadeia nuclear, desde o minério até o combustível fabricado. Mas é crucial avaliar riscos, adotar horizonte de investimento longo e evitar alocações excessivas. Nenhum investimento é garantido; consulte especialistas e analise cenários antes de tomar decisões.
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